Conheça Adriana Cecilio: Uma Voz em nome da Coalizão Nacional de Mulheres
No cenário político e social brasileiro, a presença feminina ainda é desafiada por estruturas históricas de exclusão. No entanto, mulheres têm rompido barreiras, ocupado espaços e transformado realidades com coragem e determinação. No Mulher em Pauta, nosso compromisso é dar voz a essas trajetórias, trazendo histórias inspiradoras de lideranças que desafiam o status quo e reescrevem o futuro.
Nesta entrevista exclusiva, mergulhamos na jornada de Adriana Cecilio, advogada e professora universitária, mestra em Direito Constitucional, especialista em Direito Americano e Direito Animal, presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB Santana e diretora da Coalizão Nacional de Mulheres. Com mais de 12 anos de docência e uma vasta produção acadêmica, Adriana se destaca na defesa do Direito Público, especialmente na proteção de candidatos a concursos públicos. Seu compromisso com a justiça e a equidade reflete-se em sua atuação como palestrante e articulista em grandes veículos de comunicação, como Folha de São Paulo, Estadão e Conjur.
Em um bate-papo franco, ela compartilha os desafios enfrentados, as vitórias conquistadas e sua visão para um Brasil onde mulheres ocupam, cada vez mais, os espaços de decisão.
Seja bem-vinda a essa conversa essencial. Porque lugar de mulher é aqui – e nós vamos contar essas histórias.
Sua trajetória no Direito Constitucional e na advocacia sempre esteve alinhada à luta pelos direitos das mulheres. O que despertou esse compromisso em sua vida?
O Direito Constitucional é uma área dominada por homens. Existem muitas mulheres constitucionalistas competentes, mas poucas são ouvidas, e menos ainda, citadas em livros e decisões judiciais.
A minha leitura desse fenômeno é que a mídia e a Academia ainda se guiam, mesmo que inconscientemente, por um sentimento patriarcal. O Direito Constitucional é um campo jurídico que lida com as decisões fundamentais do Estado e, historicamente, a tomada de decisão durante muitos séculos foi uma prerrogativa exclusivamente masculina.
Escrever sobre Direito Constitucional, ser ouvida e ser lida é um desafio que se impõe às mulheres juristas de maneira ainda mais marcante do que em outras áreas do Direito.
Por isso, é tão importante ocupar esse espaço. Nosso pensamento deve e precisa ser considerado. As mulheres constitucionalistas merecem ocupar um espaço de maior deferência e consideração pela Academia Jurídica.
Como foi sua jornada até assumir a diretoria da Coalizão Nacional de Mulheres? Quais foram os maiores desafios e aprendizados nesse caminho? Conte um pouco da sua trajetória até aqui.
Eu comecei a participar de diversos grupos feministas, mas tive algumas dificuldades em encontrar espaços nos quais me sentisse de fato acolhida.
Fui aprendendo mais e mais sobre o movimento feminista, sua vital importância para a concretização dos direitos das mulheres e a melhoria da qualidade da nossa democracia. Tenho certeza, para além do clichê, que a mudança será, sim, feminina!
Entendo a necessidade de ensinarmos umas às outras, fazermos correções e observações sobre falas e condutas que não nos beneficiam coletivamente, mas discordo que isso deva ser feito de maneira a expor colegas, constrangendo-as. Eu acompanhei diversas situações como essa, em alguns espaços dos quais participei, e isso sempre me incomodou bastante.
A vontade de estar certa era maior do que a empatia. Isso não é produtivo, a meu ver.
Cuidarmos umas das outras, acolher as dúvidas, as fraquezas, os medos e os erros, mas de forma gentil. Isso é revolucionário.
A Coalizão nasceu com esse DNA.
Não se trata de produzir um ambiente artificial, estilo “kumbaya”, onde todas têm obrigação de gostar umas das outras, mas sim, ter a obrigação de cuidar para que o ambiente seja seguro, saudável e mediado pela força da sensibilidade.
Podemos discordar, podemos debater, mas ninguém precisa ser rude com ninguém. Franqueza sem gentileza é grosseria. O mundo já é hostil o suficiente com as mulheres, nós não precisamos reproduzir isso em nossas relações.
No Código de Ética e Conduta da Coalizão Nacional de Mulheres, uma das normas inegociáveis é a condução dos diálogos sempre observando a comunicação não violenta.
A Coalizão nasceu em dezembro de 2022 e, até aqui, esse formato de atuação tem dado muito certo!
A Coalizão Nacional de Mulheres se define como um espaço de união dos movimentos feministas progressistas no Brasil. Qual foi o ponto de partida para a criação desse movimento e qual a importância dele no cenário atual?
Desde o início, como está disposto em nossa Carta de Fundação, defendemos que a união de grupos feministas é o caminho para fortalecer pautas estratégicas.
Existem objetivos que são comuns a todos os movimentos, como o fortalecimento e a proteção dos direitos das mulheres. Então, propor ações envolvendo diversos movimentos é algo que funciona bem para produzir um impacto maior na sociedade, e a chance de sermos ouvidas aumenta significativamente.
Com o tempo, fomos reunindo lideranças feministas de diversas áreas, sendo elas vinculadas a movimentos específicos ou não.
Nosso formato de atuação também é peculiar. Não fazemos, em regra, notas de repúdio ou de apoio, exceto se essa ação reverberar em algo que realmente seja útil para quem for a destinatária do texto. Todas as ações que realizamos têm como premissa a vontade de realmente influenciar a realidade de maneira transformadora.
Um movimento que reúna mulheres, as acolha e fortaleça, que trabalhe para modificar de forma concreta as mazelas que nos afligem é algo muito potente e necessário, em especial, nesse passo histórico tão sombrio, repleto de ameaças de retrocesso que estamos enfrentando.
O Brasil ainda enfrenta uma enorme desigualdade na participação das mulheres nos espaços de poder. Como você observa a atuação de entidades como a Coalizão para transformar essa realidade?
A nossa atuação é muito sensível. Buscamos soprar coragem nos sonhos das mulheres que buscam ocupar espaços de poder, bem como acolher e fortalecer as mulheres que já ocupam esses espaços.
Chegar “lá” é extremamente complexo e desafiador. Ao chegar, os obstáculos se multiplicam. Manter-se nesses ambientes marcadamente masculinos e masculinizados, por vezes, chega a ser adoecedor para as mulheres.
Nós acreditamos que a sensação de não estar sozinha, de saber que existe um grupo de mulheres incríveis que está torcendo por você, que a admira genuinamente, é algo que tem o poder de produzir um sentimento de destemor e encorajamento.
Você é uma mulher à frente de um movimento nacional que luta pela equidade racial e de gênero. Como sua vivência pessoal e profissional influencia sua atuação na Coalizão?
Eu sou muito grata a todas as colegas e amigas que tanto me ensinaram e me ensinam.
Eu aprendo sempre e muito, diariamente, com os diálogos que desenvolvemos nos grupos da Coalizão.
A Coalizão existe porque essa reunião de mulheres extraordinárias foi capaz de gerar um espaço realmente único e transformador. É uma honra caminhar com mulheres históricas que possuem uma trajetória de luta que inspira a todas nós.
Posso dizer que a minha vida se divide em antes e depois da Coalizão.
Fiz amizades lindas. Convivo com pessoas que admiro profundamente. Eu sou influenciada pela força dessas mulheres todos os dias.
É, sem dúvida, uma das melhores experiências que já vivi ao longo da minha vida.
A carta de fundação da Coalizão Nacional de Mulheres destaca a interseccionalidade como um pilar fundamental. Como você acredita que possamos garantir que mulheres trans, indígenas, quilombolas e com deficiência sejam efetivamente incluídas na luta feminista?
Elas precisam estar presentes nos espaços e sentir-se efetivamente convidadas a participar de todas as discussões e das tomadas de decisão dentro dos movimentos.
Considero essencial estarmos atentas para não colocar as pessoas em “caixinhas”. É comum acabar tecendo convites para eventos ou invocar a participação em discussões de colegas “diversas”, apenas para que tragam falas a respeito de sua experiência e vivência pessoal.
Para além da mulher trans, da indígena, da quilombola, da mulher com deficiência, há uma profissional competente, ou alguém que pratica um esporte, que tem um hobby interessante, que escreve poesias, que possui uma solução criativa e diferenciada para um problema do cotidiano que pode afligir a todas nós.
Não limitar nenhuma mulher a um tema como se uma característica pessoal fosse capaz de definir toda a sua potência.
Esse é um cuidado que precisa estar sempre presente, em especial, em razão da branquitude que tende a colocar as mulheres brancas como referenciais universais em relação a todas as temáticas e relegar às outras mulheres apenas oportunidades de colaboração e contribuição pontuais.
O Brasil vive um momento político desafiador para os direitos das mulheres. Como a Coalizão tem articulado suas ações para enfrentar retrocessos e avançar em conquistas?
Nossas ações partem sempre da pergunta “o que podemos fazer de eficiente para impactar essa situação?”
Nós buscamos ocupar a mídia publicando artigos instigantes que tragam à sociedade dados e argumentos qualificados para instrumentalizar os debates que se fazem necessários em relação às pautas que defendemos.
Para além dos artigos, cartas abertas endereçadas a autoridades, manifestações coletivas, nós também realizamos atos concretos.
Em 2024, um Desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná fez uma fala extremamente machista em uma sessão de julgamento que envolvia um caso de assédio praticado por um professor com uma aluna menor de idade.
Entendendo que o julgador claramente não conhecia a doutrina a respeito da violência contra a mulher, nós reunimos quase 20 obras, todas escritas por membras da Coalizão, e levamos ao Tribunal para doar à biblioteca da Corte.
Com a doação, foi criada uma sessão na biblioteca dedicada a questões de gênero e raça.
Essa foi uma das muitas ações que realizamos, mas uma das que mais nos orgulhamos porque o efeito dela foi realmente transformador.
O combate à violência contra as mulheres é uma pauta urgente e necessária. Como você observa a atuação de instituições e de iniciativas populares nesse enfrentamento e quais são as principais barreiras que ainda precisamos superar?
É essencial que haja mais mulheres nos espaços de poder e que elas sejam mais e mais ouvidas para que a violência contra a mulher comece a diminuir.
A presença feminina em posições de autoridade, paulatinamente, produzirá o efeito de desconstruir essa imagem de “mulher como acessório do homem”. A meu ver, essa percepção da mulher submissa e dependente do homem é a fonte das práticas de violência.
Uma vez que somos colocadas nessa posição de alguém que, supostamente, deveria suportar tudo, nesse “tudo” cabem todos os tipos de abusos e violências.
É preciso romper com esse discurso que prega a desigualdade entre homens e mulheres. Enquanto essa ideia estiver presente no inconsciente coletivo, seguiremos, tristemente, acompanhando os incontáveis episódios das mais variadas formas de violência de gênero.
Você já inspirou e inspira muitas mulheres com sua trajetória. Quem foram ou são as mulheres que mais te inspiram e o que aprendeu com elas?
Eu me sinto inspirada por todas as que me antecederam e muitas com as quais convivo, felizmente.
Procuro ler sobre mulheres históricas como Hipátia, Émilie Du Châtelet, Marie Curie, Frida Kahlo, Nísia Floresta, bell hooks, Angela Davis.
Aprendi e aprendo com elas sobre perseverança, esperança, coragem e ousadia.
Para as mulheres que estão iniciando sua militância ou buscando seu espaço nos movimentos progressistas, feministas e políticos, qual conselho você daria?
- Fique em ambientes que sejam saudáveis para você.
- Observe se o movimento que você passou a compor busca produzir algo de efetivo.
- Apoie mulheres que apoiam mulheres.
- Seja leal com seus ideais e com suas companheiras de trincheira.
- Tenha em mente que nós somos as ancestrais daquelas que virão. Nós temos um compromisso com elas. Precisamos deixar o mundo um pouco melhor do que recebemos.
- Feminismo não pode ser um discurso autoempoderador. Precisa ser uma prática transformadora. Estar presente em seu dia a dia na forma como você trata as mulheres com as quais convive. Quem anda com você precisa se sentir segura caminhando ao seu lado.
- E sempre que puder, ajude uma mulher a reconhecer o quanto ela é poderosa. Quando fortalecemos umas às outras, geramos referenciais que fazem desabrochar em nós a nossa própria força.