Jô Dias: da sacola na mão ao mandato na Câmara — uma mulher que escuta, age e transforma

Quando Jô Dias fala sobre Abaetetuba, no interior do Pará, sua voz vem carregada de pertencimento. Ela conhece as 72 ilhas e os 36 ramais da cidade como quem percorre os próprios caminhos da memória. Não é exagero dizer que sua trajetória nasceu nas vielas do empreendedorismo, passou pelas águas da escuta comunitária e chegou ao parlamento como um barco firme, guiado pela vontade de cuidar.

Mãe de três filhos, mulher preta, periférica e apaixonada por sua terra, Jô começou como sacoleira, vendendo para sustentar os filhos e sonhar alto. Trabalhou na organização de eventos no Centro de Lazer Ar Livre, onde aprendeu, na prática, o valor da escuta, da presença e da ação concreta. A política surgiu como extensão natural desse compromisso com o outro. Durante oito anos, foi assessora da primeira prefeita mulher de Abaetetuba, Francineti Carvalho, e em 2010 assumiu a presidência do PSDB-Mulher no município, onde defendeu com afinco os direitos das mulheres amazônidas.

Jô tentou a primeira eleição em 2012, ficando como 1ª suplente. Não desistiu. Em 2016, já figurava entre as candidatas mais votadas. E foi em 2020 que o reconhecimento veio em forma de mandato: foi eleita vereadora, com base popular sólida e uma escuta ativa que não cabia mais nas promessas — pedia ação.

No cargo, transformou seu mandato num instrumento de transformação. Criou o Gabinete Móvel Popular, levando os debates às ruas, aos bairros, às ilhas — onde o povo está. Foi dela a luta pelo Centro de Hemodiálise, por políticas públicas para mulheres, cultura, educação e pelo respeito às pessoas idosas. Implantou a Comissão Permanente dos Direitos da Criança, Adolescente, Mulher e Idoso, um marco histórico na Câmara Municipal.

E sua criatividade legislativa floresceu em projetos de impacto direto:

🔹 Jozinha Educativa – uma boneca que leva educação e cidadania a crianças e adolescentes de forma lúdica.
🔹 Feira da Mulher do Campo – espaço de renda e protagonismo para mulheres rurais.
🔹 Mutirão do Emprego – gerando oportunidades para quem mais precisa.
🔹 Prevenção ao Escalpelamento – enfrentando um problema grave na região ribeirinha com informação e política pública.
🔹 Programa contra o Etarismo – enfrentando o preconceito contra a velhice com debates e ações.
🔹 Reconhecimento da Associação de Mulheres Artesãs Quilombolas do Rio Genipaúba como de utilidade pública.

Nada disso teria sido possível sem o olhar cuidadoso de quem entende que a política precisa tocar o real. Por isso, ao fim do seu mandato, Jô não quis parar. Fundou o Instituto ELOS, um espaço para institucionalizar projetos que criou como vereadora, como o Empreender com Elas (que já formou mais de 500 mulheres), o AFETO e o Saúde e Alegria em DIAS.

O que move Jô não é o cargo, é o compromisso. “Representar é ouvir, acolher e agir”, diz ela. Não basta discursar, é preciso aparecer nos becos, nas escolas, nas feiras e nas ilhas — onde o povo está. E foi com trabalho, não com palavras, que ela conquistou o respeito do seu território.

Seu maior desafio? A discriminação velada dentro do legislativo, que ela enfrentou com coragem. “Tive que me impor, provar minha capacidade, mostrar que competência não tem gênero”, conta. Mas nem isso a parou.

Nos próximos anos, ela quer alçar voos mais altos na política, sempre mantendo o vínculo com as bases. Pretende continuar como elo entre a sociedade e o poder público, ampliando a formação de mulheres, promovendo cidadania ativa e fortalecendo campanhas de inclusão.

Para Jô, a presença de mulheres negras na política é urgente. E ela não fala só em presença — fala em decisão, em voz, em protagonismo. “Mais mulheres no poder significa mais união e mais justiça”, defende.

Sua forma de liderar? Um canal de escuta constante, presencial, virtual e nas redes, com foco em resolver problemas reais. Seu sonho é ampliar ainda mais a formação de lideranças femininas na Amazônia, construindo uma política feita por e para quem nunca foi ouvido.

Jô Dias não é só uma política. É um ponto de virada. Uma mulher que entendeu que o amor pela cidade vira força quando encontra ação. E que a transformação social começa no simples gesto de escutar — e fazer.


📍 Esta reportagem integra a editoria “Mulheres que Inspiram” do portal Mulher em Pauta. Aqui, destacamos as vozes que constroem novas possibilidades nos espaços públicos e privados de poder e decisão. Porque o lugar de mulher é aqui.

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