Luana Raposo: da bancada ao mercado, a mulher que quer curar o câncer com ciência brasileira

Quando Luana Raposo de Melo Moraes iniciou um estágio no Instituto Vital Brazil, ainda estudante de Farmácia Industrial pela Universidade Federal Fluminense, não imaginava que aquela experiência abriria a trilha que a levaria a fundar uma das startups de biotecnologia mais inovadoras do país. Mas como toda mulher cientista que ousa sonhar, ela seguiu o chamado. E decidiu que não bastava escrever artigos científicos — era preciso transformar ciência em cura.

Hoje, Luana é CEO da ImunoTera, empresa que cofundou em 2016 ao lado das pesquisadoras Bruna Porchia e Mariana Diniz. Com sede em São Paulo, a ImunoTera é uma deeptech voltada para o desenvolvimento de imunoterapias e vacinas terapêuticas para doenças infecciosas e crônicas — com foco especial no câncer do colo do útero, causado pelo HPV, uma das principais causas de morte entre mulheres na América Latina.

A história da ImunoTera começou com inquietação: por que pesquisas promissoras na universidade viravam apenas publicações e patentes sem uso social? Grávida de sua segunda filha, em pleno doutorado no ICB-USP, Luana decidiu transformar esse inconformismo em ação. Assim nasceu a TERAH-7, vacina terapêutica que não ataca células saudáveis, tem baixa toxicidade e apresentou 100% de eficácia em modelos animais. Em parceria com o Hospital das Clínicas da USP, 60% das pacientes tratadas com a TERAH-7 apresentaram regressão total ou parcial da neoplasia no colo do útero.

É ciência de fronteira feita no Brasil — e por mulheres.

A trajetória não foi fácil. Luana e suas sócias enfrentaram a ausência de formação empreendedora, a burocracia da área de saúde, a escassez de investimentos para empresas lideradas por mulheres. Mas com coragem, buscaram apoio em aceleradoras como o BioStartupLab, Inovativa Brasil e o suporte estratégico da FAPESP via o programa PIPE. Hoje, a startup soma mais de R$ 5 milhões captados, parcerias com instituições como o Hospital Israelita Albert Einstein, além de reconhecimentos nacionais e internacionais, como os prêmios Santander de Empreendedorismo, ICESP, AC Camargo, Finep, Bayer Foundation e o ranking da 100 Open Startups.

Luana, que também é mãe, mentora de outras empreendedoras e defensora da ciência como política pública, enxerga a inovação como ferramenta de transformação social. “A maior parte das mulheres diagnosticadas com câncer do colo do útero está no SUS, tem baixa escolaridade e mora em regiões pobres. Não dá para fazer ciência sem olhar para quem mais precisa”, afirma.

A plataforma de vacinas desenvolvida pela ImunoTera é adaptável a outras doenças e tipos de câncer, como mama e orofaringe. A empresa também incorporou projetos de imunoterapia contra Zika, Dengue e COVID-19. E quer ir além: com a validação clínica da TERAH-7 prevista para 2027, Luana espera atrair investimentos que permitam escalar novas soluções, ampliar parcerias com universidades e oferecer bolsas para formar mais cientistas mulheres.

Sua liderança é completa: da bancada do laboratório à mesa de negociação com investidores, passando pela gestão administrativa, propriedade intelectual, articulação política e mentoria. Em 2023, foi selecionada pela WIPO (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) para um programa de formação de mulheres em STEM, e em 2025 participou da Delegação Brasileira no VivaTech, maior evento de tecnologia da Europa.

Além de CEO, é também rede de apoio para outras mulheres. “Sou grata por ter uma rede que me apoiou a chegar até aqui. E quero ser essa rede para outras. Mulheres têm habilidades únicas que transformam o ambiente de negócios e a ciência. E eu acredito profundamente nisso.”

Mas ainda há barreiras. Apenas 1% do capital de risco é destinado a startups lideradas exclusivamente por mulheres. Luana defende mais investimento em empreendedorismo científico feminino, mais mulheres em posições de liderança e mais igualdade salarial. “Não é um desafio só da ImunoTera. É um desafio das mulheres. E nós seguimos resistindo — inovando.”

Para ela, a cura não está apenas na molécula, mas na estrutura social que permite ou impede que ela chegue a quem precisa. E, por isso, sua missão vai além da ciência. É sobre justiça, acesso, equidade.


📍 Esta reportagem integra a editoria “Mulheres que Inspiram” do portal Mulher em Pauta. Aqui, destacamos as vozes que constroem novas possibilidades nos espaços públicos e privados de poder e decisão. Porque o lugar de mulher é aqui.

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