Em um país continental onde o eixo Rio-São Paulo ainda dita muitas das regras do jogo cultural, produzir arte no interior do Nordeste exige mais do que competência técnica: exige uma identidade inabalável. E Katharina Gurgel sabe disso como ninguém. Com mais de 25 anos de estrada, ela transformou o cenário cultural do RN e agora consolida sua trajetória com a Katá Consultoria Cultural e Criativa.
Pontes de Afeto e Técnica: Como Katharina Gurgel está redesenhando o mercado cultural a partir do Rio Grande do Norte
Nesta conversa franca e potente, Katharina discute os desafios de ser mulher em um mercado historicamente masculino, a importância de humanizar portfólios artísticos e como a “sutileza” pode ser uma ferramenta revolucionária para derrubar muros.
Mulher em Pauta: Katharina, são mais de 25 anos de atuação. Se olharmos para a profissional que começou e para a fundadora da Katá hoje, qual foi a maior transformação interna que você viveu nesse percurso?
Katharina Gurgel: Você tocou numa palavra que eu amo: identidade. É como uma impressão digital, algo que todo mundo tem e que é único. Acredito que todos têm muito a contribuir com o mundo, mas percebi, ao longo desses 25 anos, que a identidade é construída. Quando ela é finalmente percebida, torna-se algo muito forte, como a raiz de uma árvore.
Fui percebendo que a minha identidade estaria para sempre entrelaçada com a cultura. Tentei fugir em vários momentos — trabalhei com vendas, no comércio — mas a arte sempre me resgatava. É nesse mundo que me sinto realizada, plena e feliz. A profissional que começou cantando em casamentos e fazendo projetos locais aos 20 anos, hoje é uma pessoa assumida e publicamente apaixonada por arte. Eu me reconheço como uma operária da cultura e me vejo como um instrumento de transformação. Quero ser trabalhadora da cultura até o fim.
O nome “Katá” carrega uma sonoridade forte. Como essa escolha reflete a sua essência pessoal dentro da nova consultoria?
Katharina Gurgel: Eu quis formalizar e nomear uma iniciativa que já realizo há muito tempo. Não queria apenas uma empresa de produção de eventos, mas uma consultoria. Procurava um nome curto, que remetesse a mim — já que sempre me chamaram de Kat ou Katá
Fui pesquisar os significados e encontrei definições perfeitas. No grego, “Kata” (κατά) significa movimento e profundidade. No japonês, “Kata” (型) é a forma perfeita, uma sequência de movimentos coreografados que buscam a disciplina. E no iorubá, significa espalhar, alcançar e colher. Era tudo o que eu queria: espalhar o que faço e o que os artistas de Mossoró fazem, divulgar a arte em todos os cantos e becos, e, ao mesmo tempo, colher tudo isso para mim também. A Katá Consultoria Cultural e Criativa nasce dessa amplitude: a crença de que qualquer sonho pode se materializar em um projeto cultural.
Produzir cultura no interior do Rio Grande do Norte é um ato de resistência. Como você enxerga o papel da mulher nordestina na descentralização da produção cultural brasileira?
Katharina Gurgel: É completamente um ato de resistência. É uma bandeira e, ao mesmo tempo, um “facão afiado”. Nós, mulheres nordestinas, somos esse facão que vai cortando o mato e abrindo caminho em mata fechada. O mercado cultural era extremamente masculino, “do macho”, e nós tivemos que nos impor nos nossos espaços, além de provar competência. O nosso trabalho é redobrado.
Essa descentralização acontece porque vamos registrando nossa força e talento em pegadas que, por muito tempo, foram de homens. Orgulho-me de ter liderado produções onde deleguei funções para equipes inteiras de homens, conquistando o respeito deles não pela imposição grosseira, mas pelo entendimento de que meu trabalho merecia respeito. Hoje, Mossoró chama atenção porque a maioria dos quadros de gerência e decisão — na dança, teatro, audiovisual ou marketing — é ocupada por mulheres. Elas estão no leme, guiando a trajetória da cultura e da arte aqui.
Sua marca fala em “encurtar caminhos”. Para as artistas e produtoras do interior, quais são os maiores “muros” que a Katá se propõe a derrubar?
Katharina Gurgel: O maior muro é o da indiferença. Muitas instituições de fora ainda têm a visão preconceituosa de que, no interior do Nordeste, não existe competência técnica suficiente para entregar um trabalho digno e de qualidade. Acredito na quebra desses muros através da sutileza e do trabalho.
Lembro de quando trouxemos uma produção da minissérie Verdades Secretas 2, da Globo. Originalmente, uma cena seria gravada no gelo, mas sugerimos que fosse feita no sal, em nossas pirâmides de sal. Para comprovar a viabilidade à direção, fui várias vezes às salinas, fiz vídeos de madrugada, no nascer e no pôr do sol, seguindo rigorosamente a formatação técnica que pediram. Fiz isso morrendo de medo da responsabilidade, mas confiei em mim. Comprovei com sutileza, qualidade e talento. Nós somos um polo exportador de talento. Estamos muito acima de várias regiões em criatividade, e é com essa excelência que derrubamos os muros.
No Mulher em Pauta, acreditamos que a sensibilidade é um ativo de gestão. Como você equilibra a “alma” com a “técnica” na hora de viabilizar um projeto?
Katharina Gurgel: Por muito tempo, coloquei minha intuição em segundo plano para escutar os outros. Não sei precisar o momento exato, mas quando passei a arriscar e acreditar no que eu sentia que era o caminho certo — mesmo morrendo de medo — os resultados foram melhores.
A técnica e a alma andam juntas. Se você tem só a alma, faz coisas bacanas, mas não sai perfeito. É preciso ter a humildade de entender que a técnica é a base. Eu sou fã da intuição, aprendi a ouvi-la sem julgamentos, mas isso não é um devaneio aleatório; é embasado na observação atenta. Escuto muito, vejo muito, presto atenção nos detalhes para validar se o que estou sentindo é o correto.
A Katá oferece desde produção executiva até assessoria. Você sente que as mulheres buscam algo além da consultoria técnica, talvez um suporte emocional e de empoderamento?
Katharina Gurgel: Sinto, sim. E acho fantástico quando mulheres não têm vergonha de pedir ajuda, de dizer que não sabem, de mostrar fragilidade. Eu sou assim. Hoje, faço questão de perguntar quando não sei: “Você me ensina? Onde eu leio? Como estudo?”.
Quando tive contato com a produção da Globo, vi que precisava melhorar tecnicamente minha comunicação, torná-la mais rápida e exata. Aprendi muito perguntando. Estou aberta para que as mulheres venham até a Katá para conversar. Antes de qualquer coisa, sou apaixonada pelas histórias de todo mundo.
O mercado cultural muitas vezes ainda é dominado por figuras masculinas. Como a sua experiência ajuda a navegar e abrir espaços nesses ambientes corporativos?
Katharina Gurgel: Não sou fã do embate grosseiro ou autoritário com ninguém. Acredito que venço qualquer batalha com bons argumentos, fundamentados, mostrando que domino aquele campo e conheço as consequências.
Já passei por situações de provocação. Lembro de um show de stand-up com um comediante famoso que trouxe seu próprio produtor. Esse produtor tentava me dar ordens e sair do palco, ignorando que eu era a produtora executiva local. Eu detinha as informações do território. Tive que me impor. Em um momento, desfiz uma ordem dele e precisei falar mais alto para deixar claro: a última palavra ali era a minha. Fiz isso porque era necessário para que aprendessem a nos respeitar.
Já tivemos casos de artistas famosas chegando aqui e chamando a cidade de “fim de mundo”. Tive que chamar o produtor e exigir respeito, lembrando que a cidade estava pagando o cachê dela. Precisamos nos posicionar para ninguém passar como um trator por cima da gente. Porque nós também somos tratores quando necessário.
Um dos seus serviços é a “Criação de Portfólio Artístico”. Como você ajuda as artistas a traduzirem suas trajetórias para que o mercado as enxergue com valor, combatendo a síndrome da impostora?
Katharina Gurgel: Tento deixar o portfólio o mais humanizado possível. Claro que precisamos enumerar, datar e nomear as realizações, mas precisamos colocar o humano na descrição. Portfólios muito secos não conectam, e pessoas se identificam com a verdade.
Não podemos ter vergonha de expor o tamanho do que fizemos. Por exemplo, ao produzir um festival de jazz, não foi apenas um evento: foram 5 mil pessoas na Estação das Artes, oficinas para 60 crianças, hotéis ocupados, geração de renda para vendedores ambulantes. É uma onda que atinge um campo muito maior que o palco. Precisamos destacar esse impacto social e econômico nos nossos currículos para que o mercado entenda o nosso real valor.
O que “criar pontes entre a arte e o mercado” significa para você no atual momento político e social do Brasil?
Katharina Gurgel: Criar essas pontes é uma revolução. Passamos por um período sombrio e triste que jogou nossa dignidade no chão, mas estamos recuperando o fôlego. A arte e a cultura estão sendo valorizadas novamente como salvação — e eu as considero pilares fundamentais, inclusive para a consciência política.
A arte é como a água que passa na fresta: ela entra onde ninguém mais consegue. Hoje, vejo a cultura como minha voz e minha arma para abrir caminhos. Precisamos de muita consciência para que esses caminhos não se fechem novamente. Nós, produtores e artistas, temos que falar mais alto, dar visibilidade a essa voz para criar uma corrente de lucidez.
Para as jovens mulheres que estão começando agora na produção cultural fora do eixo Rio-São Paulo, qual o conselho fundamental que você gostaria de ter recebido lá atrás?
Katharina Gurgel: Eu gostaria que tivessem me alertado que é muito difícil. Fui pega de surpresa várias vezes e pensei em desistir — na verdade, até desisti por breves intervalos, mas voltei. A gente precisa de constância e confiança para não se perder de si mesma, pois o mundo faz de tudo para que a gente se perca.
Ouvimos a vida inteira que arte não dá certo, que é ilusão, que vamos “morrer na praia”. E, de fato, às vezes batalhamos muito e parece que não haverá frutos. Mas há. Aqui no Nordeste é o dobro de dificuldade: tudo é mais caro, mais longe. Já tive shows cancelados simplesmente porque a artista não aceitava viajar 200 km de carro. São obstáculos que testam nossa resistência. Mas, justamente porque é mais difícil, nos tornamos ainda mais fortes. Nós somos guerreiras, armadas com talento, competência e muita força. Vai ser difícil alguém ganhar uma luta com a gente.