O cenário político brasileiro de 2026 ganha um contorno de ruptura. Até o momento, há apenas uma mulher oficialmente lançada como pré-candidata à Presidência da República: Samara Martins Silva, candidata da Unidade Popular (UP). Mineira de nascimento e potiguar de coração, Samara não emerge dos gabinetes climatizados de Brasília ou dos diretórios tradicionais do Sudeste. Sua trajetória é forjada no barro das periferias de Natal, no cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS) e na linha de frente do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).

Militante do Movimento de Mulheres Olga Benário, Samara traz para o debate nacional uma perspectiva interseccional rara na disputa majoritária: a de uma mulher negra, mãe e trabalhadora que entende a moradia não como mercadoria, mas como o pilar fundamental da dignidade humana e da proteção contra a violência doméstica. No Conjunto Emmanuel Bezerra, onde reside, ela vivencia a política que propõe — uma política feita de “ação direta” e organização popular.

Nesta entrevista, Samara discute o simbolismo de projetar o Brasil a partir do Nordeste, critica a “cláusula de barreira” que silencia vozes divergentes e detalha como a economia do cuidado deve ser o centro de um novo projeto de nação.


Entrevista Exclusiva com pré-candidata à Presidência da República: Samara Martins da Silva

1. Samara, você é mineira de nascimento, mas construiu parte da sua trajetória política e profissional na periferia de Natal, onde vive há 16 anos. Lançar uma pré-candidatura à presidência a partir da Zona Oeste da capital, e não dos tradicionais diretórios do sul/sudeste, é um ato simbólico? Qual a importância de projetar o Brasil a partir do olhar de quem vive e trabalha no Nordeste?

Samara Martins da Silva: Apesar de não ter sido essa a única base para a decisão do diretório nacional da UP, ganha uma importância imensa esse enfrentamento, no cenário político, de tentar inferiorizar o que vem do Nordeste — as pessoas, o sotaque, a cultura. Mas o critério da verdade é a prática, e, há anos, o Nordeste demonstra, a olhos vistos, todas as suas virtudes e belezas, como, por exemplo, agora, atrizes e atores sendo premiados nos maiores eventos, incluindo talentos potiguares. Orgulho!

Me radiquei em Natal desde a minha formação na UFRN. O RN e o Nordeste são lugares de gente trabalhadora, que sofre muito com a ganância de poderosos no poder, mas que constroem todos os dias as riquezas desse país. Grande parte das frutas, grãos, caprinos e ovinos vem do Nordeste. 70% da alimentação de nós, brasileiros, vem da agricultura familiar, e parte dela vem daqui. Se o Nordeste não produz, o Sul/Sudeste não come e vice-versa. Então, essa xenofobia (aversão e discriminação a um povo), incentivada inclusive pelo governo federal anterior, não se baseia na realidade, mas sim na necessidade de explorar ainda mais os trabalhadores dessa região, considerando-os “brasileiros inferiores”. Se a nossa candidatura servir também para denunciar essa opressão, será muito importante! Viva o Nordeste!

2. Diferente de muitos políticos de carreira, sua trajetória vem do movimento de moradia e do atendimento no SUS. De que forma a vivência diária com a falta de teto e as carências da saúde pública moldam um olhar feminino sobre o orçamento público? O que muda na caneta de uma presidenciável que conhece a realidade da fila do posto de saúde?

Samara Martins da Silva: Comecei a atuar no movimento estudantil, denunciando os cortes na educação, que ainda acontecem, e o sucateamento das escolas públicas. Sempre estudei em escolas públicas de bairro e elas definitivamente precisam de mais investimentos. Na moradia, é inadmissível que um direito constitucional tenha sido transformado em mercadoria e que poucas famílias tenham acesso. O déficit habitacional no Brasil em 2025/2026 chega a quase 6 milhões, e os preços dos aluguéis só crescem. Morar dignamente em casa própria no Brasil é privilégio. Isso sem falar no conceito ampliado de moradia.

Eu moro hoje no conjunto habitacional Emmanuel Bezerra, que foi fruto da luta das famílias do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). Sem a luta, a maioria dessas famílias estaria no aluguel, de favor ou aumentando a estatística, quase invisível, das pessoas em situação de rua. A saúde é o problema mais sensível para os brasileiros, porque pela nossa saúde e pela dos nossos a gente dá tudo o que pode. É a angústia de uma mãe com seu filho em uma UPA ou hospital, sem saber se vai ser atendida a tempo. O fato de os investimentos na saúde pública serem tão baixos é desrespeitoso. Em uma comparação simples: no orçamento de 2026, será gasto R$ 1,8 trilhão para refinanciamento da dívida, enquanto para a saúde serão investidos R$ 271,3 bilhões. Fica clara a prioridade. Nós, mulheres, muitas vezes chefes de família, sabemos que a prioridade é a qualidade de vida. Antes de pagar “dívidas”, a família precisa comer, ter um teto, saúde e educação. Por que com o país seria diferente?

3. Samara, você é militante do Movimento Olga Benário, que é conhecido por uma atuação muito direta: ocupar espaços para criar casas de acolhimento para mulheres vítimas de violência. Como levar essa urgência e essa metodologia de ‘ação direta’ das ocupações para a burocracia de um Governo Federal? O que o Olga Benário ensina que a política tradicional ignora sobre proteger as mulheres?

Samara Martins da Silva: A epidemia de violência e feminicídio contra as mulheres precisa ser enfrentada de maneira direta. Fingir que são casos isolados de “monstros” é ilusão. Tratar como a atrasada máxima de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” fará milhares de novas vítimas. São quase 5 mulheres vítimas de feminicídio todos os dias no Brasil em 2025. Isso é revoltante! Dados apontam que 7 em cada 10 mulheres já sofreram alguma violência de gênero que afetou sua vida social e profissional.

As ocupações do Movimento de Mulheres Olga Benário não só denunciam essas violências, como também a escassez de recursos para essas mulheres, que se sentem sozinhas diante de toda a brutalidade. O governo federal precisa enfrentar esse problema de frente, combatendo a lógica da sociedade capitalista de inferiorizar as mulheres e objetificá-las. É preciso combater a impunidade desde as primeiras ameaças. Por isso, é necessário ter recursos para uma educação não sexista, bem como para o acolhimento e proteção das mulheres e seus filhos. A postura do governo deve ser contra a lógica patriarcal do sistema capitalista, independente de ser um homem ou mulher na presidência. Mas, evidente, as mulheres que vivem tais violências desde a infância são as que melhor percebem a urgência da resolução desse problema.


4. Sabemos que mulheres negras são os principais alvos da violência política no Brasil, não apenas física, mas simbólica e institucional. Ao colocar seu nome para o cargo máximo do executivo, você inevitavelmente se torna um alvo. Como você e o partido estão se preparando emocionalmente e estrategicamente para enfrentar a violência política de gênero durante a pré-campanha e a campanha eleitoral?

Samara Martins da Silva: Além de todas as violências de gênero, nós, mulheres que ousamos estar na política, sofremos muito com a violência política. E as mulheres negras e LGBTQIA+ são as que mais sofrem esses ataques. Antes mesmo de conhecerem a sua trajetória, já te julgam intelectualmente e socialmente. Desde a minha primeira candidatura a vereadora em Natal, fui discriminada por ser mulher, negra, mãe e da classe trabalhadora. O povo brasileiro, apesar de majoritariamente feminino, negro e pobre, ainda é levado a considerar que seus representantes devem ser homens, brancos e ricos, que vivem uma realidade distinta da nossa.

Conto muito com o apoio da minha família e do meu partido. Nossa tática é desenvolver uma imensa campanha popular que possa atingir milhões de pessoas com muita agitação política, panfletagens nas portas de fábricas, empresas, favelas e escolas. Dialogar com o povo é a chave, pois um povo convencido pode tudo, inclusive tomar o poder no país!

5. Mesmo dentro de partidos de esquerda, o protagonismo feminino muitas vezes fica restrito às vice-lideranças ou secretarias, enquanto as cabeças de chapa majoritárias continuam masculinas. A sua escolha como pré-candidata foi unânime na UP. O que isso diz sobre a democracia interna do partido e qual o recado para outras legendas que ainda usam mulheres apenas para preencher cota?

Samara Martins da Silva: Um dos motivos que nos levaram a organizar a Unidade Popular (UP) foi justamente ter um partido onde as mulheres tivessem papel decisivo. Lançamos a campanha “Mulher Tome Partido” porque não queremos que a questão feminina seja apenas uma bandeira setorial, mas uma prática cotidiana. Na maioria dos partidos, as mulheres são apenas cotas. Na UP, nós somos direção. Desde o primeiro congresso, sou a vice-presidenta nacional e presidenta estadual no RN. Grande parte dos nossos diretórios são presididos por mulheres. Minha pré-candidatura foi aprovada por unanimidade, o que é uma alegria e uma grande responsabilidade. Sem as mulheres não se muda a política, nem se revoluciona um país. O Brasil precisa de uma transformação radical: uma revolução.


6. A pandemia escancarou que são as mulheres que sustentam a sociedade através do trabalho do cuidado (doméstico, saúde, educação), muitas vezes não remunerado. Você já pensa em uma proposta real para a valorização da economia do cuidado e para a emancipação econômica dessas mulheres?

Samara Martins da Silva: Este é um tema fundamental. Onde estão as mulheres na economia? As mulheres, no setor privado, recebem cerca de 21% a menos que os homens. Já as mulheres negras chegam a ganhar 53% menos que homens brancos, estando majoritariamente no trabalho doméstico. Além disso, somos responsáveis por todo o trabalho invisível e não remunerado do cuidado com a casa e os filhos. Recentemente, pesquisadores indicaram que, se fosse remunerado, o trabalho de cuidado representaria 13% do PIB brasileiro.

Nossas propostas passam necessariamente pelo fim da escala 6×1, pela redução da jornada de trabalho e pelo aumento do salário mínimo (que defendemos ser reajustado em 100%), além da igualdade salarial para igual função. Precisamos revogar as reformas da previdência e trabalhista, que desconsideram o trabalho doméstico e as especificidades das trabalhadoras (dignidade menstrual, licença-maternidade, etc.). Somado a isso, a educação é fundamental: precisamos da universalização do ensino infantil e escolas em tempo integral. Investir na educação é investir na nossa emancipação.

7. A luta por moradia é uma das suas bandeiras principais. Estatisticamente, mulheres são a maioria das chefes de família em ocupações e favelas. Você acredita que garantir o direito à cidade e à moradia é, antes de tudo, uma política de proteção à mulher contra a violência doméstica e a dependência financeira?

Samara Martins da Silva: Sem dúvida alguma. Não tem como se desvencilhar do ciclo de agressão tendo que morar obrigatoriamente com o agressor. A condição econômica e a falta de moradia são formas de domínio que homens exercem sobre as mulheres. Como sair de casa sem ter para onde levar os filhos? Muitas mulheres suportam a violência para garantir um teto para eles. É doloroso ouvir essas histórias, mas é a realidade.

Defendemos uma profunda reforma urbana. No Brasil, são mais de 11 milhões de imóveis vazios para quase 6 milhões de famílias sem teto. Morar não deveria ser privilégio nem mercadoria. Para garantir a independência das mulheres, é necessária uma política habitacional que zere o déficit, moradias dignas, o fim dos despejos e empregos formais com creches e escolas em tempo integral.


8. O sistema eleitoral brasileiro, através da distribuição do fundo partidário e tempo de TV, tende a favorecer os grandes partidos e candidaturas masculinas já consolidadas. Como uma pré-candidatura de uma mulher negra, de um partido ideológico e menor, pretende furar essa bolha algorítmica e midiática para chegar ao ouvido da eleitora indecisa?

Samara Martins da Silva: A cláusula de barreira é uma lei antidemocrática! O sistema foi desenhado para que os mesmos de sempre larguem na frente. A UP não recebe fundo partidário nem terá tempo de TV e rádio. Como os eleitores vão escolher livremente se apenas uma parte dos candidatos é apresentada nos grandes veículos? Além disso, o fundo eleitoral de R$ 5 bilhões para 2026 é um desrespeito diante de um salário mínimo tão baixo.

Cobramos que os grandes meios de comunicação cumpram o compromisso com a democracia e nos convidem para os debates, pois isso não é proibido. Nossa tática para furar a bolha é a campanha popular: agitação, panfletagem, comícios e reuniões — o trabalho de base, olho no olho. A força está no povo, e o povo deve participar não só nas eleições, mas em todas as decisões do país. Venha fazer parte da Unidade Popular!

9. A sociedade cobra das mulheres na política uma performance em que elas não podem falhar. Sendo filha de mãe professora e vindo de origem humilde, qual o papel da ancestralidade feminina na sua construção como líder? Quem são as mulheres que seguraram a sua mão para que você pudesse pleitear a presidência hoje?

Samara Martins da Silva: Sou de uma família de muitas professoras. Minha mãe foi defensora da escola pública e meu pai, um homem negro, trabalhou desde menino. Aprendi cedo que dignidade, estudo e luta caminham juntos. Minha ancestralidade tem rosto: minha mãe, minhas avós e meu bisavô paterno, que talvez tenha sido alcançado pela escravidão. Me inspiro em Dandara dos Palmares, Aqualtune, Maria Felipa, Helenira Rezende, Margarida Maria Alves…

Nós, mulheres pretas, somos cobradas o tempo todo e culpadas por tudo. Mesmo quando somos mais capacitadas, temos que provar nossa competência a cada instante. Chego aqui de mãos dadas com essas mulheres que ousaram mudar suas histórias. Também conto com o apoio do meu companheiro, dos meus filhos e dos meus companheiros de partido que constroem essa caminhada coletiva comigo.

10. Samara, independentemente do resultado das urnas em 2026, a sua pré-candidatura já é um fato histórico. Que mensagem você deixa hoje para a menina negra, moradora da Zona Oeste de Natal ou de qualquer periferia do Brasil, que vai olhar para a TV (ou para o celular) e ver alguém parecida com ela debatendo o futuro da nação?

Samara Martins da Silva: É um fato histórico, mas mais histórico será quando uma mulher negra estiver no cargo máximo de decisão desse país. A cara do Brasil é uma mulher negra! Quero dizer a todas as meninas e mulheres subestimadas por sua origem ou pela cor de sua pele: nós podemos! Nós vencemos os açoites dos senhores no passado e venceremos as humilhações dos patrões hoje. Não aceitaremos que nos diminuam. Nos rebaixaram tanto que acharam que não nos levantaríamos mais, mas estamos aqui e não recuaremos. Construiremos, por nossas próprias mãos, uma sociedade sem exploração. Lutaremos até que todos sejam economicamente e socialmente iguais!

Redes Sociais

Instagram de Samara

Instagram do Partido

Canal do Partido no Youtube

Ligue para nós

+55 84 99638-0422

Onde estamos

Avenida Alberto Maranhão. Alto da Conceição. Mossoró/RN. 59600-315

Envie-nos

contato@mulherempauta.com