A receita para salvar 236 mil vidas: A cientista que defende a taxação de ultraprocessados com foco na igualdade
Conheça Joyce Moreira: A cientista que defende a taxação de ultraprocessados com foco na igualdade
O Brasil caminha para um cenário de saúde pública alarmante: se a tendência atual for mantida, três em cada quatro adultos (75%) estarão vivendo com excesso de peso em 2044. A projeção, que soa como um alerta vermelho, ganha contornos de esperança através do trabalho de cientistas brasileiras dedicadas a reverter esse quadro.
Uma dessas vozes fundamentais é a de Joyce Moreira Camargo. Nutricionista formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com especialização em Urgência e Trauma pela SES-GO e mestre em Epidemiologia pela UNIFESP — onde atualmente cursa o doutorado —, Joyce integra a linha de frente de um estudo que propõe uma mudança drástica no ambiente alimentar brasileiro.
Publicada na prestigiada American Journal of Preventive Medicine, a pesquisa traz dados contundentes: o aumento de 50% no preço de produtos ultraprocessados poderia evitar cerca de 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas e até 236 mil mortes ao longo de duas décadas.
O perigo na prateleira
Hoje, 57% dos adultos no país já vivem com sobrepeso. A modelagem matemática utilizada pelos pesquisadores revelou que, no cenário de taxação mais elevada, a prevalência de excesso de peso em 2044 cairia para 50%.
Essa redução repercute diretamente na queda de enfermidades como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença renal crônica e tipos de câncer associados ao peso elevado. O estudo é, inclusive, conservador, pois mediu apenas os danos mediados pelo excesso de peso, deixando de fora os efeitos diretos que os ultraprocessados (repletos de aditivos, emulsificantes e aromatizantes) causam no organismo.
Muito além do imposto: uma questão de justiça social
Quando o assunto é aumentar impostos, é natural que a primeira reação de grande parte da população seja a aversão, temendo que o encarecimento da comida penalize ainda mais o bolso dos brasileiros. No entanto, o foco do estudo de Joyce Camargo passa longe de reforçar desigualdades sociais.
A pesquisadora enfatiza que a tributação não é uma “bala de prata”, mas sim uma engrenagem dentro de um sistema de proteção à saúde coletiva. Para que a medida funcione de forma justa e combata ativamente a desigualdade, ela precisa ser parte de um pacote amplo de ações.
Conforme apontado na dissertação de Joyce, o enfrentamento ao consumo crescente de ultraprocessados exige uma frente múltipla, que inclui:
- Regulamentação severa da publicidade de alimentos industrializados.
- Rotulagem nutricional adequada e transparente.
- Subsídios governamentais para a produção e comercialização de alimentos in natura e minimamente processados, tornando a “comida de verdade” mais barata e acessível a todos.
- Fomento constante a ações de educação alimentar e nutricional.
O peso do lobby no Congresso
Apesar das evidências científicas, a luta pela implementação dessas políticas esbarra em fortes interesses econômicos. O recém-aprovado Imposto Seletivo, que entrará em vigor em 2027, incluiu as bebidas açucaradas, mas deixou de fora a categoria ampla dos ultraprocessados (como biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo) devido a um forte lobby da indústria atuando no Executivo e no Legislativo.
Os pesquisadores estimam que a tributação ampla não seria apenas uma política de prevenção de mortes, mas também uma enorme ferramenta de economia pública. A redução dos casos de doenças crônicas pouparia bilhões de reais aos cofres públicos em gastos com internações, tratamentos contínuos e medicamentos de alto custo ao longo de 20 anos.
O trabalho de Joyce Moreira Camargo deixa uma mensagem clara: produtos que causam danos à saúde precisam pagar a conta, mas o Estado também tem o dever de subsidiar e facilitar o acesso à alimentação saudável. Só assim o Brasil conseguirá nutrir seu futuro de forma justa e igualitária.