A pesquisadora mossoroense conclui o doutorado e comprovou o potencial cicatrizante de uma espécie nativa do Nordeste.
Conheça Kelly Kercy, a cientista potiguar que transforma planta salineira em promessa para a saúde
A ciência potiguar acaba de ganhar um capítulo de destaque no cenário internacional, protagonizado pela força e pela inteligência feminina. A pesquisadora de Mossoró/RN Kelly Kercy Nogueira da Silva concluiu seu Doutorado Profissional em Biotecnologia da Saúde pela Universidade Potiguar (UnP) com um estudo inovador que volta os olhos para a riqueza do nosso próprio quintal. Ela investigou a fundo o potencial cicatrizante da Sesuvium portulacastrum, uma planta halófita extremamente adaptada às duras condições de salinidade da Caatinga.
Sob a orientação do pesquisador Dr. Fausto Pierdoná Guzen, a tese de Kelly não apenas revelou resultados animadores para a medicina, mas também rendeu uma publicação na prestigiada revista científica internacional Frontiers in Bioengineering and Biotechnology, classificada com o selo A1 no sistema Qualis da CAPES — o mais alto nível de avaliação científica acadêmica.
A cura que vem do sal e da terra
A Sesuvium portulacastrum é uma velha conhecida de quem vive na região da Costa Branca potiguar, que abrange municípios como Mossoró, Areia Branca, Grossos e Macau. Por ser uma região rica em salinas e com forte atividade econômica voltada para a produção de sal, a incidência dessa espécie vegetal tolerante a ambientes salinos é imensa. Inclusive, o material botânico utilizado nos testes da pesquisa foi coletado in natura na cidade de Grossos.
Segundo Kelly Kercy, a motivação para desbravar essa espécie nasceu do desejo de encontrar alternativas terapêuticas que fossem sustentáveis, acessíveis e fundamentadas em recursos naturais do Brasil. “A literatura científica já apontava propriedades antioxidantes e antifúngicas da espécie. A partir disso, decidimos investigar seu potencial cicatrizante, considerando também o baixo custo e o impacto ambiental reduzido”, explica a cientista.
Para além da saúde humana, a pesquisadora destaca que a planta também atua na fitorremediação, auxiliando na recuperação de solos contaminados, o que engrandece ainda mais seu valor ecológico.
Resultados que surpreendem
Durante o modelo experimental com ratos da linhagem Wistar, a pesquisa analisou como um gel a 10% formulado com a planta, bem como a sua versão macerada, atuavam na cicatrização de feridas. Os resultados foram formidáveis: o tratamento induziu uma redução significativa da inflamação e promoveu a deposição de colágeno e a reepitelização da pele. Na prática, a planta nordestina apresentou efeitos cicatrizantes comparáveis aos da Nebacetina, uma pomada antibiótica convencional amplamente vendida nas farmácias.
Apesar do sucesso absoluto na fase pré-clínica, a jornada científica exige cautela e rigor. Antes de a formulação chegar às prateleiras para uso humano, serão necessários estudos toxicológicos aprofundados, a padronização exata da fórmula e ensaios clínicos rigorosos para garantir total segurança e eficácia aos pacientes.
Uma mulher de múltiplos saberes
Reduzir Kelly Kercy a um único título seria impossível. A autora dessa promissora descoberta carrega uma trajetória acadêmica de tirar o fôlego pela sua interdisciplinaridade. Além de ser doutora em Biotecnologia da Saúde, ela é advogada e professora universitária, com especializações robustas em Direito Tributário e Direito do Trabalho.
Seu fascínio pelo conhecimento também a levou a se especializar em Farmácia Clínica (com foco em prescrição farmacêutica) e a conquistar o título de mestra em Administração. Como se não bastasse, ela atualmente é acadêmica das graduações de Administração e Farmácia.
A trajetória de Kelly é a prova incontestável de que o interior do Rio Grande do Norte pulsa com inovação. Com foco na sustentabilidade e na valorização da nossa biodiversidade, ela não apenas quebra barreiras no ambiente acadêmico, mas também inspira milhares de meninas e mulheres a ocuparem, com excelência, os espaços da ciência e da pesquisa.