Após 98 anos de domínio exclusivamente masculino na categoria, a diretora de fotografia afro-americana e filipina leva a estatueta por seu trabalho magistral e inovador em “Pecadores”.
A noite deste domingo, 15 de março, acaba de entrar para os anais da história do cinema — e, mais importante ainda, para a história das mulheres na indústria audiovisual. Há poucos minutos, o palco do Dolby Theatre testemunhou um marco inédito: Autumn Durald Arkapaw foi anunciada como a vencedora do Oscar de Melhor Fotografia pelo aclamado longa “Pecadores” (2026).
HISTÓRICO! Autumn Durald Arkapaw quebra teto de vidro e é a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Fotografia
Ela não apenas é a primeira mulher não branca (de ascendência filipina e afro-americana) a ser indicada, mas acaba de se tornar a primeira mulher a levar a estatueta para casa em 98 anos de história da premiação.
Em uma categoria historicamente blindada contra a presença feminina, Arkapaw precisou carregar um peso duplo: o do ineditismo e o da própria tecnologia. Para capturar a essência de “Pecadores”, a diretora de fotografia optou por filmar em película de 65mm no formato IMAX, operando pessoalmente a gigantesca câmera de 65 quilos. O esforço físico e criativo rendeu um espetáculo visual que a Academia simplesmente não pôde ignorar.
Um século de espera
Para entendermos a magnitude do que acabou de acontecer, basta olhar para o passado. Em quase um século de Oscar, apenas três mulheres haviam sequer chegado à lista de indicadas em Melhor Fotografia: Rachel Morrison (2018, por Mudbound), Ari Wegner (2021, por Ataque dos Cães) e Mandy Walker (2022, por Elvis). Arkapaw chegou como a quarta indicada da história, enfrentando veteranos do setor, e finalmente rompeu a barreira final.
A vitória de hoje escancara uma ferida aberta na indústria. Apesar dos avanços midiáticos, a presença feminina na direção de fotografia ainda é desoladora: representamos apenas 8% nos filmes de streaming e 7% nos 250 filmes de maior bilheteria de 2022. Na TV, o cenário é ainda mais gritante, com 98% dos episódios entre 2024 e 2025 sem nenhuma mulher no comando da fotografia. Autumn não apenas venceu um prêmio; ela desafiou uma estatística esmagadora.
O poder das alianças e da representatividade
Conhecida por seus trabalhos brilhantes em Palo Alto, na série Loki e no épico Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, Autumn encontrou no diretor de “Pecadores”, Ryan Coogler, um parceiro fundamental. Coogler é notório por montar equipes diversas e dar protagonismo a mulheres e profissionais negros em áreas de liderança — como fez também com Hannah Beachler (direção de produção) e Ruth E. Carter (figurino).
Emocionada com a jornada até o palco desta noite, Arkapaw fez questão de dividir o mérito com o diretor e refletir sobre o peso coletivo de sua conquista:
“É uma honra que isso esteja acontecendo com o Ryan e neste filme em particular. Não é apenas por mim, não é só sobre a indicação [e a vitória], mas sobre para quem e com quem isso acontece. Ele acredita em você no mais alto nível, com ou sem prêmios.”
Um legado para a próxima geração
Nos bastidores, antes de subir ao palco para receber o prêmio que mudaria sua vida, Arkapaw já havia falado sobre o que esse momento representa para o futuro. Hoje, na plateia, o olhar mais importante para ela não era o dos membros da Academia, mas o de seu filho pequeno, que a acompanhou na cerimônia.
“Meu filho pode ir porque já tem idade suficiente. […] Quando fazemos esses filmes, fico longe. Acho que para ele ver no que tudo isso culmina é realmente especial”, compartilhou a diretora.
Mais do que o brilho do ouro em suas mãos, o verdadeiro triunfo de Autumn Durald Arkapaw nesta noite de domingo é a porta que ela acaba de arrombar para as futuras cineastas. Como a própria pontuou recentemente:
“Significa muito quando meninas jovens ou estudantes de cinema de origem semelhante vêm até mim e expressam gratidão, não apenas pelo trabalho, mas pelo fato de poderem ver alguém como elas atrás da câmera.”
Hoje, as meninas de todo o mundo não estão apenas vendo alguém como elas atrás da câmera. Elas estão vendo alguém como elas no topo do mundo, com um Oscar nas mãos.