Atriz, educadora e pesquisadora, ela transformou os palcos e as salas de aula de Mossoró em trincheiras na defesa da ancestralidade potiguar e do protagonismo feminino.
Lenilda Santos: como uma Mulher Negra entrelaça Resistência, Memória e Cultura no Rio Grande do Norte
Para entender a força da cultura popular e da resistência negra no Rio Grande do Norte, é preciso olhar para as mulheres que constroem essa história com as próprias mãos. Uma dessas gigantes é Francisca Lenilda da Silva Santos. Nascida em 1965 no Sítio Alívio, na zona rural de Patu, e radicada em Mossoró desde 1968, Lenilda é a personificação de que a arte não é apenas entretenimento, mas um instrumento vital de transformação social, conscientização política e sobrevivência histórica.
Filha de Raimundo e Maria das Dores, ela vem de uma família numerosa onde a arte sempre correu nas veias — dividindo o amor pela cultura com irmãos bonequeiros, músicos e atores. Hoje, casada, mãe de Ilê e Odara Inaê, e avó de Luanda, Lenilda consolidou uma vida inteira dedicada a dar voz àqueles que a sociedade historicamente tentou silenciar: a juventude periférica, as mulheres e o povo negro.
O Palco Como Território de Luta
A jornada artística de Lenilda começou em 1983, nas ruas e nos palcos italianos. Apenas dois anos depois, ela se tornaria fundadora da Companhia Escarcéu de Teatro, grupo em atividade desde 1985 que é um pilar da cultura mossoroense e potiguar.
O talento de Lenilda foi reconhecido além das fronteiras do seu estado há bastant tempo. Ela arrebatou o prêmio de Melhor Atriz em Serra Talhada (PE) em 1996, com a personagem Marquesinha, e colecionou indicações em festivais de Minas Gerais e do Ceará com a peça Trupizupe o Raio da Silibrina. Em Mossoró, sua presença é marca registrada nos maiores espetáculos da cidade: integrou o Oratório de Santa Luzia por seis anos, foi assistente de direção do mestre Amir Haddad no primeiro Auto da Liberdade (2000) e deu vida a mulheres históricas, como Ana Floriano, no aclamado Chuva de Bala no País de Mossoró.
Educação e Feminismo: A Arte Que Constrói Cidadania
Para Lenilda, o palco e a sala de aula são extensões do mesmo propósito. Mestra pelo PosEnsino (UERN/UFERSA/IFRN), graduada em Pedagogia, especialista em Ensino da Arte e formanda em Letras Português, ela atua como professora da rede estadual, desenvolvendo ações que unem teatro, cultura afro-brasileira e formação humana nas comunidades populares.
Seu compromisso com os direitos das mulheres também é estrutural. Nos anos 1990, ela participou do processo de criação do Centro Feminista 8 de Março e coordenou o Grupo de Teatro Feminista Virago, provando que o diálogo entre arte e mobilização social é uma arma poderosa contra a misoginia. Lenilda levou o teatro para onde ele é mais urgente: criou o projeto Natal Feliz em assentamentos rurais, atuou com o Teatro do Oprimido em escolas estaduais e fundou o curso de teatro para a infância na Escola de Artes de Mossoró.
A Câmera e a Cena: O Resgate da Memória Negra
Nos últimos anos, a pesquisa de Lenilda Santos mergulhou profundamente na ancestralidade e no teatro autobiográfico. Com forte vínculo ao NEABI/UERN e projetos voltados para a valorização de mulheres na arte potiguar, ela expandiu sua atuação para o audiovisual, assumindo as facetas de roteirista, produtora e atriz de cinema.
O resultado não poderia ser diferente do sucesso: em 2015, levou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Natal pelo documentário Lembrança do Idoso ao Abrigo. Mais recentemente, vem focando suas lentes na identidade afro-brasileira, produzindo documentários premiados como Corpos Negros na Arte e Os Ventos de Oyá. Atualmente, debruça-se sobre Aldenora Santiago – Uma Voz Preta, um projeto essencial para resgatar a memória da cantora negra mossoroense.
Uma Vida Dedicada à Permanência Histórica
Com projetos como Artista Preta: Uma Memória na Cena Mossoroense e espetáculos que debatem identidade negra feminina e racismo, Lenilda dialoga diretamente com as cicatrizes e as potências das mulheres negras nordestinas.
Para o Portal Mulher em Pauta, a trajetória de Lenilda Santos é um lembrete pulsante de que o apagamento cultural só é vencido através da ação coletiva. Como ela mesma defende, a arte é o espaço definitivo de resistência e liberdade. E enquanto houver mulheres como Lenilda nos palcos, nas escolas e nas telas do Rio Grande do Norte, a nossa memória — e a nossa história — jamais será silenciada.